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O Homem que Foi Posto numa Jaula 
Que obra perfeita  o homem! Qu4o nobre na razo! Queo infinito em suas faculdades! Na forma e nos movimentos, quo 
preciso e admirvel!... O modelo dos animais! 
 SHAKESPEARE, Hamlet. 
Dispomos de VRIAS e distintas informaes, hoje em dia, sobre o que acontece a uma pessoa quando a privam deste ou 
daquele elemento de liberdade. Temos os nossos estudos de privao sensorial e como uma pessoa reage quando colocada 
em diferentes espcies de atmosfera autoritria etc. Mas, recentemente, tenho perguntado a mim prprio que modelo 
surgiria se reunssemos essas vrias peas do conhecimento. Em resumo, o que aconteceria a uma pessoa, em sua vivncia 
global, se a sua liberdade total  ou to prxima da total quanto possamos imaginar  lhe fosse retirada? No decorrer dessas 
reflexes, uma parbola ganhou forma na minha mente. 
A ESTRIA COMEA com um rei que, enquanto estava absorto em divagaes a uma das janelas do seu palcio, certa 
tarde, notou por acaso um homem na praa embaixo. Era, ao que parecia, um homem comum, voltando para casa ao 
entardecer, e que f azia esse mesmo percurso cinco noites por semana h muitos anos. O rei acompanhou esse homem em 
sua imaginao: viu-o chegando a casa, beijando maquinalmente a mulher, comendo o seu jantar, perguntando se estava tudo 
bem com as crianas, lendo o jornal, indo para a cama, tendo, talvez, relaes sexuais com a sua esposa ou talvez no, 
dormindo e saltando da cama na manh seguinte para ir trabalhar 
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E uma curiosidade sbita se apoderou do rei, a qual, por um momento, baniu a sua fadiga: Gostaria de saber o 
que aconteceria a um homem se fosse posto numa jaula, como os animais no zoolgico. A sua curiosidade 
talvez no fosse muito diferente, em alguns aspectos, da dos primeiros cirurgies que se perguntavam como 
seria realizar uma lobotomia no crebro humano. 
Assim, no dia seguinte, o rei chamou um psiclogo, falou-lhe da sua idia e convidou-o a observar o 
experimento. Quando o psiclogo objetou, dizendo:  uma coisa impensvel manter um homem numa jaula, o 
monarca replicou que muitos governantes tinham, com efeito, se no literalmente, feito isso, desde o tempo 
dos romanos, passando por Genghis Khan, at Hitler e outros lderes totalitrios do nosso tempo; ento por 
que no averiguar cientificamente o que aconteceria? Alm disso, acrescentou o rei, estava decidido a fazer a 
experincia, quer o psiclogo participasse ou no dela; ele j convencera a Fundao para as Grandes 
Pesquisas Sociais a desembolsar uma grande verba para esse experimento e por que deixar que esse dinheiro 
fosse desperdiado? Nesta altura dos acontecimentos, o psiclogo tambm j estava sentindo uma grande 
curiosidade ntima sobre o que aconteceria se um homem fosse enjaulado. 
E assim foi que, no dia seguinte, o rei ordenou que fosse trazida uma jaula do zoolgico  uma grande jaula que 
tinha sido ocupada por um leo, quando era novo, e depois por um tigre; recentemente, servira de lar a uma 
hiena que tinha morrido na semana anterior. A jaula foi colocada num ptio interno, nos terrenos do palcio, e 
o homem comum que o rei tinha visto da janela foi trazido e colocado l dentro, O psiclogo com os seus 
testes de Rorschach e Wechsler-Bellevue na pasta para administr-los num momento apropriado, instalou-se 
do lado de fora da jaula. 
No comeo, o homem estava simplesmente desorientado e repetia constantemente ao psiclogo: Eu tenho de 
pegar o bonde, tenho de ir trabalhar, olhe que horas so, j estou atrasado para o trabalho! Mas, depois, 
durante a tarde, o homem comeou a dar-se seriamente conta do que estava acontecendo e ento protestou 
com veemncia: O rei no pode fazer isto comigo?  uma injustia!  contra a lei! A sua voz era estentrica e 
tinha os olhos cheios de clera. O psiclogo gostou do homem pela sua clera e apercebeu-se, vagamente, de 
que j tinha notado esse estado de animo, com freqncia, nas pessoas que o consultavam em sua clnica. 
Sim, compreendeu ele, essa clera  a atitude das pessoas que  como os adolescentes saudveis de 
qualquer poca  querem combater o que est errado que protestam diretamente contra isso. Quando as 
pessoas vo  clnica nesse estado de nimo  boa elas podem ser ajudadas. 
Durante o resto da semana, o homem enjaulado continuou em seus veementes protestos. Quando o rei 
passava perto da jaula, como fazia diariamente, o homem dirigia seus protestos diretamente ao monarca. 
Mas o rei respondia: Escute aqui, bom homem, voc tem comida em abundncia, tem uma boa cama e no 
precisa trabalhar. Tomamos boa conta de voc. Ento por que  que est reclamando? 
Passados mais alguns dias, os protestos do homem diminuram e acabaram por cessar. Ele mantinha-se 
silencioso em sua jaula, recusando-se geralmente a falar. Mas o psiclogo podia ver o dio brilhando em seus 
olhos. Quando proferia algumas palavras, eram frases curtas e claras, proferidas na voz forte, vibrante mas 
calma, da pessoa que odeia e sabe a quem odeia. 
Sempre que o rei entrava no ptio, havia um fogo profundo nos olhos do homem. O psiclogo pensou: Deve 
ser esta a maneira como as pessoas atuam quando so conquistadas pela primeira vez. Lembrou-se de que 
tambm tinha visto aquela expresso dos olhos e ouvido aquele tom de voz em muitos pacientes, na sua 
clnica: o adolescente que fora injustamente acusado em casa ou na escola e nada podia fazer para justificar-se; 
o estudante universitrio de quem a opinio pblica e do compus exigia que fosse um astro no campo de 
futebol mas era intimado pelos seus professores a obter aprovao nos cursos para os quais no podia se 
preparar adequadamente, mesmo que tivesse xito no futebol.. . e que acabava sendo expulso da faculdade por 
ter colado nos exames. E o psiclogo, observando o dio ativo nos olhos do homem, pensou: Isso ainda  
bom; uma pessoa que trava essa luta em seu intimo pode ser ajudada. 
Todos os dias, o rei, quando passeava pelo ptio. no se esquecia de recordar ao homem enjaulado que 
recebia bom alimento, estava confortavelmente instalado e assistido, ento por que no gostava dessa vida? E 
o psiclogo notou que, enquanto o homem se mostrara no princpio inteiramente impenetrvel s observaes 
do rei, parecia agora que, cada vez mais, fazia uma pausa para reflexo aps a fala do monarca  por uma 
questo de segundos, o reaparecimento do dio em seu olhar era protelado  como se ele perguntasse a si 
prprio se aquilo que o rei dissera teria alguma possibilidade de ser verdade. 
E, passadas mais algumas semanas, o homem comeou discutindo com o psiclogo como era uma coisa til 
poder contar 
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com alimento e teto certos; e como o homem tinha de viver de acordo com a sua sorte, de qualquer jeito, e uma 
boa parte da sabedoria estava, justamente, em aceitar a sorte reservada a cada um. No tardou a desenvolver 
uma extensa teoria sobre a segurana e a aceitao do destino, o que soou aos ouvidos do psiclogo de um 
modo muito semelhante s teorias que Rosenberg e outros haviam elaborado para os fascistas na Alemanha. 
Durante esse perodo, o homem mostrou-se muito volvel, falando profusamente, embora a sua fala quase 
sempre fosse um monlogo. O psiclogo notou que a voz do homem era montona e inexpressiva, como a voz 
das pessoas na televiso que fazem um esforo para olhar o telespectador nos olhos e tentam parecer sinceras, 
quando lhe dizem que deve ver o programa que elas anunciam, ou os locutores de rdio que so pagos para 
persuadir o ouvinte de que deve gostar de msica clssica. 
E o psiclogo tambm observou que os cantos da boca do homem estavam agora cados, como se ele 
estivesse muito amuado. Ento, de sbito, o psiclogo recordou-se: era assim que as pessoas de meia-idade, 
da classe mdia, se apresentavam em sua clnica, os respeitveis burgueses que iam  igreja e viviam 
moralmente mas estavam cheios de ressentimento, como se tudo o que eles faziam fosse concebido, nascido e 
criado em ressentimento. Isso fez lembrar ao psiclogo o dito de Nietzsche de que a classe mdia se consumia 
no ressentimento. Foi ento que, pela primeira vez, o psiclogo comeou a ficar seriamente preocupado com o 
homem na jaula, pois sabia que, quando o ressentimento ganha razes firmes e comea a ser bem racionalizado 
e estruturado, pode se tornar como um cncer. Quando a pessoa deixa de saber a quem odeia,  muito mais 
difcil ajud-la. 
Durante esse perodo, a Fundao para as Grandes Pesquisas Sociais teve uma assemblia da junta de 
administradores e foi decidido que, como estavam gastando uma verba para sustentar um homem numa jaula. 
era prefervel que representantes da Fundao fossem, pelo menos, dar uma vista de olhos no experimento em 
curso. Assim, um grupo de pessoas, formado por dois professores e alguns estudantes finalistas, apresentou-
se um dia para ver o homem enjaulado. Um dos professores passou ento a dar uma aula ao grupo sobre a 
relao do sistema nervoso autnomo e das secrees das glndulas internas com a existncia humana numa 
jaula. Mas ocorreu ao outro professor que as comunicaes verbais da prpria vtima tambm poderiam ser 
interessantes, de modo que perguntou ao homem como  que se sentia por viver enjaulado. O homem mostrou-
se cordial com os professores e estudantes, e explicou-lhes que escolhera esse modo de vida porque havia grandes 
valores na segurana e em ter quem cuidasse dele; que eles certamente compreenderiam como a sua escolha tinha sido 
razovel e sensata  e assim por diante. 
Que estranho e que pattico!  pensou o psiclogo. Por que  que ele se bate to arduamente para fazer com que os 
outros aprovem o seu modo de vida? 
Nos dias seguintes, quando o rei passava pelo ptio, o homem fazia-lhe reverncias aduladoras, detrs das grades da jaula, e 
agradecia-lhe pela comida e o alojamento. Mas quando o rei no estava no ptio e o homem ignorava que o psiclogo estava 
presente e o observava, a sua expresso era muito diferente, taciturna e mal-humorada. Quando o alimento lhe era passado 
pelo tratador, atravs das grades, o homem deixava freqentemente cair os pratos ou entornava a gua, e depois sentia-se 
embaraado e confuso, por causa da sua estupidez e inpcia. A sua conversao tornou-se cada vez mais montona; e, em 
vez de se envolver em teorias filosficas sobre o valor de ter quem cuidasse bem dele, passou a expressar-se em frases 
simples como  o destino, que ele repetia incessantemente ou ento murmurava entre dentes:  isso. O psiclogo 
estava surpreendido por ver que o homem era agora to inepto que deixava cair a comida, ou to estpido que s se 
expressava nessas frases estreis, pois sabia, graas aos seus testes, que o homem tinha sido originalmente de uma boa 
inteligncia mdia. Ento, fez-se luz no psiclogo: era esse o gnero de comportamento que ele tinha observado em alguns 
estudos antropolgicos entre os negros do Sul  homens que tinham sido forados a beijar a mo que os alimentava e 
escravizava, que j no eram capazes de odiar ou de se rebelar, O homem na jaula passou, cada vez mais, a sentar-se, 
simplesmente, durante o dia todo, na mancha de sol que lhe chegava atravs das grades, e o seu nico movimento era mudar 
de lugar, de tempos em tempos, da manh at o pr-do-sol. 
Era difcil dizer, exatamente, quando teve incio a ltima fase. Mas o psiclogo apercebeu-se de que o rosto do homem 
parecia no ter agora qualquer expresso particular; o seu sorriso j no era adulador mas, simplesmente, vazio e sem 
significado algum, como o esgar de um beb quando tem gs no estmago. O homem fazia as suas refeies e trocava 
algumas palavras com o psiclogo, de tempos em tempos; mas o seu olhar era distante e vago e, embora encarasse o 
psiclogo, parecia que, realmente, nunca o via.. 
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E agora o homem, em suas conversas desconexas, nunca mais usou a palavra eu. Tinha aceito a 
jaula. No tinha clera, nem dio, nem racionalizaes. Mas agora estava louco. 
A noite em que o psiclogo se apercebeu disso, sentou-se em seu apartamento pata escrever um relatrio final, 
com as suas concluses do experimento. Mas era-lhe muito difcil encontrar as palavras, pois sentia em si 
mesmo um grande vazio. Fazia um esforo para se tranqilizar com as palavras, Eles dizem que jamais se perde 
coisa alguma, que a matria  simplesmente transformada em energia e volta outra vez. Mas ele no podia 
deixar de sentir que alguma coisa se perdera, que alguma coisa abandonara de vez o universo, nesse 
experimento. 
Finalmente, o psiclogo foi para a cama sem ter concludo o relatrio. Mas no era capaz de dormir; havia como 
que uma coisa que o roia intimamente e que, em eras menos racionais e cientficas, teria sido chamada de 
conscincia. Por que no disse ao rei ser esse o experimento que nenhum homem pode fazer ou, pelo menos, 
por que no gritei que nada teria a ver com todo esse estpido negcio?  claro, o rei ter-me-ia despedido, as 
fundaes nunca mais me dariam dinheiro para pesquisas e, na clnica, todo o mundo diria que eu no era, 
realmente, um cientista no duro. Mas talvez uma pessoa possa ganhar a vida lavrando a terra nas montanhas, 
ou pintar ou escrever algo que faa mais felizes e mais livres os homens futuros... 
Mas o psiclogo compreendeu que mais divagaes eram, pelo menos dc momento, irrealistas e tentou voltar  
realidade. Entretanto, tudo o que ele conseguia era essa sensao de vazio no seu ntimo e o martelar das 
palavras Algo foi arrebatado do universo e no seu lugar ficou apenas um vazio. 
Finalmente, adormeceu. Algum tempo depois, no dealbar da madrugada, foi despertado por um sonho 
surpreendente. Uma multido se aglomerava, no sonho, diante da jaula, no ptio, e o homem enjaulado que j 
no se mostrava inerte e vazio  estava gritando atravs das grades, numa veemente oratria: 
No foi s a mim que arrebataram a liberdade!  gritava ele. Quando o rei me pe a mim ou a qualquer outro 
homem numa jaula, a liberdade de cada um de vocs tambm  arrebatada. O rei deve morrer! A multido 
comeou entoando O rei deve morrer! , apoderou-se da jaula e arrebentou-lhe as grades, que passaram a ser 
brandidas como armas quando toda aquela gente investiu contra o palcio. 
O psiclogo acordou. O sonho enchera-o de uma sensao imensa de esperana e jbilo  uma experincia de 
esperana e jbilo que, provavelmente, no seria muito diferente da experimentada pelos homens livres da 
Inglaterra quando obrigaram o Rei John a assinar a Magna Carta. Mas no fora em vo que o psiclogo fizera 
uma anlise ortodoxa durante o seu treinamento psicanaltico e, enquanto jazia deitado na cama, cercado por 
essa aura de felicidade, uma voz falou no seu ntimo: 
Ah, voc teve esse sonho para sentir-se melhor;  apenas a racionalizao de um desejo. 
O diabo  que !  disse o psiclogo saltando da cama. Talvez alguns sonhos sejam para a gente agir de 
acordo com eles! 
